Várias cartas sobre a mesa. Foi abrindo algumas que pegava e passando os olhos sem conseguir se concentrar. Só pensava na carta que vinha da sua terra natal, em papel caro com a figura do leão em alto relevo. Não a pegou primeiramente. Foi de carta em carta como se a em papel cartão creme não fosse mais importante.
Finalmente chegou a ela.
Lia que: "Pelo evento do 8º ano do novo regime enviavam-lhe a graça da anistia e o chamavam a voltar a exercer os direitos e deveres de um cidadão de bem em sua terra natal". Parou por um instante. Releu algumas vezes. Esperou por isso por um longo tempo, mas nos últimos anos já tinha se acostumado com o exílio. Observou bem a carta a sua frente, um pouco embaçada pelas lágrimas que vinham aos olhos. Observou bem a assinatura, parecia redonda de mais para uma personalidade tão dura. Também observou que era uma assinatura impressa. Impressa em tinta azul, quase parecia verdadeira para os olhos leigos.
Continuou abrindo e passando os olhos nas outras cartas.
Conta do cartão.
Se sentia ofendido com aquela carta.
Renovação do seguro.
"Graça da anistia". Hum.
Conta de água
Tanta conta se acumula quando você viaja.
Conta de telefone.
Seu país, sua cidade. O lugar que tanto ama.
Notificação do síndico, escrito a mão. O síndico escreve a mão, mas sua carta não viera assinada a mão.
Se encostou na parte de trás da cadeira e olhou o teto com as mãos na nuca. Imaginou voltando a seu país. Como amara aquele lugar. Tivera ali o melhor tempo da sua vida. Quantos lugares e pessoas queridas. Tentou envelhecer as pessoas para imaginar como seria. Começou a pensar nas mudanças do regime, que na praça central da cidade já não mais estaria um arqueiro montado.
Pensou nas formalidades do novo regime, na arrogancia dos poderosos. Se orgulhavam do crescimento que o país teve. Da relação de liderança para com os vizinhos. O que o regime mostrava era uma nação bem sucedida. E a carta viera com assinatura impressa. Recebia a toda hora convite de governos, universidades e empresas para apresentações e premiações. As cartas vinham assinadas a punho.
Era segunda-feira? Terça no relógio. Uma semana desde que vira pela última vez o dono da assinatura, em um festival internacional. Inesperadamente ele disse que um músico novato tinha cantado uma canção antiga sua em uma solenidade, mas que teria sido melhor o próprio compositor. Ficara feliz que a música tinha sido apreciada e que não fora esquecida, mas...
Sua terra natal não era mais sua. Nesses tempos, qualquer país estrangeiro o faria sentir mais em casa. Seu país mudara e se fosse lá, só viria as mudanças.
Aqui cultivamos a escrita sem leitura. Temos um trato: Não existe leitor aqui. Ninguém é ou será leitor de ninguém. Não é proibida a leitura mas essa não é suportada ou encorajada. É só a escrita pela escrita na garagem posta sob um pano velho. Que fique claro que também não cultivamos a escrita, o fazemos sim, mesmo sabendo que ela pode quem sabe ser lida (arg), mas nos envergonhamos profundamente e por isso não usamos nossos nomes.
terça-feira, 10 de novembro de 2009
terça-feira, 3 de novembro de 2009
Exausto
Depois que conseguiu respirar fundo algumas vezes sentiu vontade de rir de si. Não sabia o que era pior de nadar contra a correnteza. Se era se esforçar tanto sem quase conseguir sair do lugar ou se era depois de acabadas as forças ter que, impotente, ver tudo andando para trás rapidamente.
...Com a morte a por umidade nas paredes e cabelos brancos nos homens,
Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.
Fernando Pessoa
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